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Mulheres Negras do Brasil significou para nós um profundo mergulho em contundentes silêncios da historiografia brasileira. Saltamos à procura das personagens femininas de origem africana, seguimos em busca de representações, imagens, cenários e contextos daquelas que foram anonimamente co-responsáveis pela construção de nosso país. Durante três anos tentamos incessantemente recuperar nomes, procedências, trajetórias e tradições. Atravessamos o passado e o presente visitando memórias submersas sob as regras etnocêntricas que prevaleceram por séculos na maneira de contar a nossa história. Constatamos que a ausência de registros sobre a participação das afro-descendentes na formação e no desenvolvimento do Brasil é gritante. Com exceção dos escritos sobre o sistema escravocrata e, por vezes, uma ou outra alusão ao mito Chica da Silva, não se encontram muitas outras referências e informações sobre as mulheres negras em nossos museus, currículos escolares, livros didáticos e/ou narrativas oficiais. Diante desses vazios e esquecimentos que, já há muito tempo, nos causavam incômodo e chamavam a atenção, partimos para alcançar meios de realizar essa imersão nas principais fontes de preservação da memória nacional. Para tanto, obtivemos o patrocínio do Banco do Brasil e da Petrobras, assim como recebemos contribuição da Unifem e da Global Fund for Women. Contamos ainda, desde o início, com o apoio político da Seppir – Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – e com a valorosa cooperação de um comitê consultivo composto por pessoas ligadas a diferentes instituições acadêmicas e organizações da sociedade civil. Ancorados na Redeh – Rede de Desenvolvimento Humano –, organizamos um levantamento criterioso e especifico. Com os dados que vínhamos colhendo desde 1997, quando iniciamos a pesquisa para a publicação do Dicionário de mulheres do Brasil, traçamos o roteiro e reunimos uma equipe de pesquisadoras que incansavelmente buscaram informações sobre as afro-descendentes que pulsam na nossa história. Tivemos a sorte de contar com a colaboração de inúmeras pessoas que nos permitiram o acesso a acervos privados e generosamente disponibilizaram documentos inéditos. Entramos em contato com mais de cem instituições e reviramos dezenas de arquivos públicos e bibliotecas de varias cidades brasileiras. Deparamo-nos freqüentemente com informações contraditórias e fragmentadas pela parcialidade, a vulnerabilidade do tempo, os condicionamentos culturais e, sobretudo, as distorções dos testemunhos, oficiais ou não, daqueles que registraram os fatos. Neste único volume agrupamos imagens e informações que estavam esparsas em arquivos, instituições, coleções particulares, livros, teses, periódicos e na lembrança das pessoas. Em quatro grandes capítulos, apresentamos cerca de 950 reproduções selecionadas entre os mais de dois mil documentos iconográficos que levantamos. São pinturas a óleo, aquarelas, gravuras, desenhos e fotografias que dão sentido e embelezam esta obra. Quanto à redação, procuramos utilizar uma linguagem acessível. Além dos dados pessoais que conseguimos reunir, narramos alguns fatos e processos sociais relativos às afro-descendentes, alguns ainda inéditos na historiografia. Certamente um dos grandes desafios foi a necessidade de transcrever sinteticamente o essencial de tantas existências, episódios e contextos. Temos esperança de que o saldo de nosso empenho represente acima de tudo um sopro de incentivo à mudança de mentalidade e à superação de preconceitos, mesmo que modestamente, pensamos ter contribuído positiva e diretamente para o combate às atitudes discriminatórias. Esperamos com este livro estimular a realização de novas pesquisas, novos desdobramentos que, somados a este, possam tornar-se referência. E ainda, muito especialmente, acreditamos que seja impreterível e imperiosa a necessidade de disponibilizar dignamente, para as próximas gerações, dados fundamentais ao entendimento e à justa valorização das múltiplas funções exercidas pelas mulheres negras na edificação do Brasil. Por certo Mulheres Negras do Brasil é uma obra aberta e viva. Um mosaico incompleto no qual faltaram muitas. Que seja esta apenas a primeira edição. Outras se seguirão sempre aprimoradas com a inclusão de novas fontes, críticas e correções das leitoras e leitores. Schuma
Schumaher e Érico Vital Brazil
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